O poder do som

Na correria cotidiana, a gente não pára para desenvolver certos olhares sobre questões que, muitas vezes, são fundamentais para o nosso material de trabalho. Para quem trabalha com música não é diferente:  nós, geralmente, nos deixamos levar pela parte mais prática do trabalho e acabamos não desenvolvendo o caráter mais conceitual e crítico das nossas pesquisas.

Explorar o desenvolvimento das qualidades teóricas do seu trabalho, não só em relação à teoria musical, mas também em relação a conceitos e questionamentos, é um exercício que vai complementar a prática, e ampliar a sua compreensão do universo musical. Expandir o interesse para assuntos não tão óbvios e diretamente relacionados à área vai mudar muito a sua percepção. Por exemplo, desenvolver o olhar sobre a música além do ponto de vista do entretenimento.  Uma das possíveis linhas de desenvolvimento conceitual é analisarmos a matéria prima do nosso trabalho.

Assim, conseguimos obter uma compreensão mais abrangente e maior controle sobre o que estamos desenvolvendo. Este processo é uma linha de estudo que vai trazer um diferencial, para quem se preocupa com isso, e, necessariamente, vai enriquecer a qualidade tanto do processo da sua pesquisa, quanto do produto.  No caso, para desenvolver este estudo sobre a nossa matéria prima, teríamos que voltar os olhares para o caráter conceitual da música e, talvez antes disso, do som. Parar e conversar com pessoas que trabalham o som há tanto tempo pode ser redundante, mas existem formas diferentes de abordar o assunto e, inclusive, as nossas habilidades são desafiadas exatamente na capacidade de desenvolver reflexões sobre o que já faz parte intrínseca de nós.

O som é esse fenômeno físico maravilhoso, que mal conhecemos em sua plenitude, e que se propaga por meio de ondas, por exemplo no ar. O som pode, entre outras capacidades, influenciar o nosso comportamento de várias maneiras e estamos aqui para levantar essa questão. Ele está à nossa volta o tempo todo, atingindo, dialogando, sendo usado como instrumento de comunicação, como música, se manifestando como ruído, como apenas conseqüência de processos mecânicos, etc. Já parou para pensar quantos fenômenos sonoros fazem parte do seu dia-dia? Nem mesmo com “4’33” de John Cage, há ausência de som.

O intervalo sonoro audível é geralmente definido como 20 Hz a 20.000 Hz (20 kHz). Entretanto, poucas pessoas podem ouvir por todo este intervalo. Pessoas idosas  tendem a perder a habilidade para ouvir as freqüência acima de 10.000 Hz (=10 kHz). O infra-som se refere às freqüências sonoras abaixo do intervalo auditivo normal, ou menores que 20 Hz. é produzido por fenômenos naturais como ondas de tremor de terra e variações de pressão atmosférica; pode ser também produzido mecanicamente, tal como por um revés num sistema de ventilação.

Um sistema de ventilação típico produz freqüências de 10 Hz. Estas freqüências não podem ser ouvidas, mas podem causar dores de cabeça e distúrbios fisiológicos. Levando isso em conta, admitimos que em algumas situações, os nossos sentimentos podem ser conduzidos por estímulos sonoros, sem nos darmos conta, e esse fenômeno acontece também por causa da natureza física do som.

Umas das características sonoras mais importantes para a gente entender o tipo de conexão que possuímos com o som é forma pela qual ele se propaga. O fato dele se propagar através da vibração (em meios sólidos, líquidos e gasosos) faz com que não seja óbvia, nem visualmente explícita, a sua influência sobre nós: percebemos o som mas não conseguimos vê-lo. No senso comum, ele é invisível aos olhos e captado pelos ouvidos, mas existem também outras formas de percepção: poderíamos até dizer que o som é notado pela audição, mas deficientes auditivos também podem percebê-lo, exatamente pelo fato de ele se propagar por meio da vibração e ser captado pelo corpo todo.

O som ressoa também no corpo e este é mais um dos meios pelos quais o captamos. Fora isso, há também fatores culturais que influenciam o modo que utilizamos os sentidos. Principalmente por estarmos contextualizados em uma sociedade cujos estímulos mais fortes são os visuais, é crucial nos darmos conta de que percebemos o som através de outros sentidos. Organizar este raciocínio é importante para entender como o som nos acessa e como pode nos influenciar de maneira sublime.

Para termos uma noção de quão conectados com o som estamos, podemos partir de situações cotidianas comuns, onde a gente acaba sendo influenciado sem nem mesmo notar. Se fizermos uma listagem rápida, podemos identificar algumas vias básicas pelas quais o som nos acessa. Por exemplo, quando há um ruído ou um barulho constante: uma máquina de lavar, uma avenida movimentada ou até mesmo um som de um computador ligado. Estas são atividades sonoras, que às vezes nos estressam e irritam, e não conseguimos relacionar diretamente com o que estamos sentindo. Geralmente, notamos a diferença, ao sentir o alívio da ausência destes ruídos, fechando a janela, a porta ou desligando o computador.

São vários os momentos onde o som lidera o nosso comportamento e faz com que a gente se deixe levar de forma subliminar e, muitas vezes, também agradável. Ouvir músicas calmas depois do almoço de domingo, assistir a um filme no cinema com trilha sonora de aventura ou ir à uma balada de música eletrônica podem ser situações onde o som conduz o indivíduo a um estado alterado de percepção sem ele se dar conta, à primeira vista.

Em shows ao vivo, o comportamento do público é fortemente estimulado e influenciado, não só pelas letras das músicas, mas também pelo estilo que está sendo tocado. Por exemplo, se compararmos de forma generalizada dois extremos: música clássica e hardcore punk, ou o reggae e drum n bass. São públicos diferentes, sendo influenciados diferentemente pela música que está sendo tocada. A música não determina o comportamento de ninguém, mas estimula e aflora certas características de cada personalidade. Por isso, tanto para público quanto para músicos, também é de grande importância saber qual é o planejamento na curadoria de certos festivais.

A mistura de bandas e, consequentemente, seus públicos pode ter tanto um resultado interessante quanto um não muito produtivo. Por exemplo, o episódio do Rock In Rio no Brasil, em janeiro de 2001, onde, em um dia que só havia bandas de rock, incluindo Guns n Roses, Carlinhos Brown acabou recebendo uma chuva de vaias e garrafas de água.

Também existem situações onde utilizamos o som como um meio de alimentar e estimular posturas diante de certas atividades. Com o desenvolvimento da tecnologia e sua portabilidade, muitos de nós podemos estar sempre acompanhados de um mp3 player e usar o som, estimulando o que estamos fazendo naquele momento.

Muitas pessoas fazem o uso da música, individualmente, com o objetivo de estimular o seu desempenho em certas atividades, mas o que também acontece é a utilização da música como estímulo em grupo. Podemos encontrar exemplos em diversas naturezas de atividades: desde a prática de exercícios físicos pesados até momentos de relaxamento. Já em outros ambientes, como algumas sociedades rurais, a música pode ser usada também como um estímulo nas canções de trabalho, que possuem uma característica rítmica bastante forte. Estes tipos de canção são desenvolvidos em favor de certa atividade física, que geralmente possui movimentos repetitivos, como socar o pilão, colher o trigo ou lavar a roupa, etc. Em praticamente todos os tipos de sociedade, conseguimos identificar a música estimulando atividades.

Pelo fato de muitos de nós estarmos sempre na busca de um trabalho diferenciado, na luta constante para um lugar no mercado e na procura de conteúdo consistente, quanto mais pudermos expandir a nossa compreensão, melhor. Os exemplos acima são alguns dos muitos momentos onde dá para ver a amplitude de caminhos pelos quais o som consegue atingir nossas vidas, em suas mais diferentes formas de produção e reprodução. Sendo por meio de um acesso proposital, ou não, o som é um fenômeno que possui conexão muito forte com o ser humano. Quando a gente percebe como ele nos influencia e como podemos controlá-lo, damos um passo em direção ao desenvolvimento intelectual e prático. Expandir a compreensão é exercitar uma postura que desenvolve e enriquece tanto o seu lado profissional quanto o pessoal.

Abaixo, fiz algumas sugestões de experimentos sonoros, que podemos fazer para perceber o grau e a natureza da conexão com o som, e coloquei um vídeo que representa a influência da música no nosso comportamento.

Experimentos que podemos fazer para perceber o grau e a natureza da conexão com o som:

– assista a cenas de um filme de terror e tire o som;

– experimente usar tampões de ouvido em atividades cotidianas (não se arrisque!);

– se você dirige, tente não usar a buzina por um dia (a não ser que seja inevitável);

– experimente ouvir uma seqüência de música de estilos diferentes e note se há alguma diferença no que você sente ao ouvir cada uma.

– tire o som da sua televisão durante os comerciais;

Está é uma das mais famosas canções do artista Bobby Mcferrin. Foi composta em 1988, apenas com recursos sonoros do corpo, durante um rápido intervalo de gravação em estúdio. A sua simplicidade, somada com a melodia alegre e letra, faz com que seja bastante consistente no processo de influenciar o nosso comportamento e, talvez por isso, tenha sido ganhadora de vários Grammys, topo na parada Billboard Hot 100, com 10 milhões de visitas no Youtube e considerada das músicas mais tocadas de todos os tempos.

Escrito por Pedro Consorte e publicado no Batera.com.br

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Uma opinião sobre “O poder do som

  1. Oi Pedro! Estava fuçando atrás de um texto bacana para usar com os alinos de um curso de pós na semana que vem e…achei! Muito legal, você levantou várias bolas interessantes, agora vamos ver como eles vão jogar!

    Beijo,

    Gabriela Pelosi

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