Entrevista com Pedro Consorte (STOMP)

Entrevista por Adriana Pivatti, publicada no site Batera.com.br.

O que acha de tentarmos, juntos, um groove de percussão corporal?

Pedro Consorte, recém chegado ao grupo inglês, Stomp, dá as dicas. Ele também fala sobre sua mudança de “ares” em 2011 e quando descobriu sobre as possibilidades de sons que seu corpo podia transmitir.

Foi sua mãe o ensinou: “Ela tinha aprendido um groove básico de percussão corporal, e quando me mostrou, eu achei interessante, mas não passava de brincadeira”, lembrou.

Ele, que começou no grupo de estudos do grupo experimental de percussão corporal, Barbatuques, em 2011 recebeu convite para integrar esse grupo que o exige além dos sons de seu corpo: percussão, danças, malabarismos e muito do teatro.

Se alguém passar por Londres qualquer dia desses, passe pelo show do Stomp para dar um “oi” ao Pedro.

Logo mais, Pedro Consorte fará parte da sessão de colunistas do site Batera.com.br.

_________________________________________________________________

Site Batera:  Quando você iniciou com a percussão corporal? Foi no Barbatuques?

Pedro: Eu comecei a brincar de percussão corporal quando tinha uns 13 anos. Um dia, minha mãe chegou de uma festa, onde ela tinha aprendido um groove básico de percussão corporal, e me ensinou. Quando ela me mostrou, eu achei interessante, mas pra mim aquilo não passava de uma brincadeira musical, uma diversão sem comprometimento. Brinquei sozinho com aquela técnica durante alguns anos, e só depois fui descobrir que o cara que tinha ensinado o groove pra galera da festa era o Fernando Barba, criador e diretor dos Barbatuques.

Fui me desenvolvendo sozinho até que entrei no Colégio Friburgo, em São Paulo. No colégio, havia aulas opcionais de percussão corporal com o Cadu Granja, integrante do grupo de estudos do Fernando Barba. Então, comecei a fazer aulas com ele, me destaquei porque já tinha mais familiaridade, virei monitor da aula, até que o próprio Barba me convidou para participar do grupo de estudos, na escola de música AUÊ (Higienópolis – São Paulo). Desde então, o estudo começou a ganhar uma outra proporção e nível de aprofundamento. Eu não parei mais.

Site Batera: Conta um pouco sobre esse ambiente artístico que você cresceu.

Pedro: Na minha família, existem pessoas muito interessantes: artistas, pesquisadores, intelectuais, provocadores, etc. É uma mistura que só podia me empurrar pra frente. Por parte de mãe, tenho mãe cantora e avó pianista. Por parte de pai, tenho pai compositor e guitarrista, avô ator e avó antropóloga. Mesmo sendo pessoas que trabalham com um alto nível de exigência na qualidade de cada universo, nunca ninguém ditou qual deveria ser o meu caminho profissional. As pessoas sempre me apoiavam em qualquer decisão e a única condição era que eu fizesse bem feito. Com certeza esse ambiente construiu grande parte do que sou hoje.

Durante a minha infância, não fiz muita distinção entre o que era arte e o que não era. Dentro da minha família, não havia separação entre uma coisa e outra, e grande parte da base do meu desenvolvimento artístico aconteceu de maneira bem intuitiva. Em razão de muitas pessoas trabalharem na área das artes e pensarem arte em volta de mim, durante o meu crescimento, o aprendizado foi muito tácito. Eu estava sempre onde aconteciam os ensaios, shows, espetáculos, etc, e muito do que eu aprendi não foi de forma consciente. Talvez isso tenha acontecido pelo fato de o estímulo artístico sempre vir de maneira informal e orgânica. Do melhor jeito!

Site Batera: Quando você descobriu que seu corpo podia emitir tantos sons?

Pedro: Pensar em sons do corpo pode ser muito engraçado, principalmente porque, culturalmente, alguns sons produzidos pelo corpo são considerados inapropriados. Pense em todos os sons que o seu corpo pode produzir. Existem aqueles involuntários e os mais propositais. O que acontece é que culturalmente a gente estipula que um certo som é mais apropriado que outro. E isso varia de cultura pra cultura. A exploração dos sons do corpo parecem ter por natureza um caráter bastante lúdico, e é por isso também que está presente nas brincadeiras infantis. Mas há um outro lado dessa história, também muito interessante.

Todos nós emitimos muitos sons com o nosso corpo e capacidade de produção de som com o próprio corpo é muito mais importante do que a gente imagina. A nossa relação com os sons corporais é uma relação tão ancestral que, às vezes, chega a ser difícil identificar quais são eles e para que podem ser usados. Quando a gente é criança, parece que existe mais liberdade para brincarmos e explorarmos os sons do corpo. Já quando crescemos, há menos espaço para certos sons, até porque estipulamos culturalmente os sons que serão utilizados como ferramentas-padrão na comunicação, e isso nos faz deixar de lado alguns outros sons interessantes, como o estalo de língua, a palma, vocalizações diversas, etc.

Como eu comecei a praticar a percussão corporal enquanto passava para a adolescência, acho que ainda havia uma liberdade lúdica nas minhas atividades e isso me fez passar despercebido pelo fato de estar explorando os sons do meu próprio corpo. Pra mim era pura e simples diversão. Também pelo fato de a percussão corporal ter se desenvolvido na minha vida por meio de um caráter prático muito grande, eu nem parava pra pensar em teorias, análises e críticas. Nem tinha capacidade pra isso, quando comecei. Mas, conforme fui conversando com as pessoas, dando aulas, praticando e, inclusive, estudando na faculdade de Comunicação de Artes do Corpo (PUC-SP), percebi a importância da análise crítica sobre os nossos trabalhos e processos de pesquisa. Acho que foi aí que comecei a realmente entender a dimensão do potencial da minha prática.

Site Batera: Quais os sons que você consegue simular? E fale que parte do corpo você utiliza quando quer fazer determinados tipos de sons, tipo mais graves e mais agudos.

Pedro: Existem artistas que trabalham, por meio dos sons corporais, a simulação de outros sons. Alguns artistas dessa linha imitam os sons de instrumentos musicais. Outros desenvolvem um trabalho de sonoplastia só com sons do corpo. Eu, na verdade, tenho uma outra direção: pesquiso a descoberta dos sons do corpo como sons do corpo em si, e não como uma imitação de outros sons.

As capacidades sonoras do corpo são infinitas! Para poder organizar o pensamento sobre as possibilidades sonoras, a princípio, podemos dividí-las em sons vocais e sons percussivos. Só com a voz, existem milhares de caminhos de pesquisa e desenvolvimento, sendo que, alguns, já são bem populares. Se fizermos um recorte na gama de sons corporais para poder aprofundar o assunto, podemos falar só dos sons percussivos e organizá-los em graves, médios e agudos. A batida no peito ou do pé no chão, dependendo do piso, são os sons mais graves do corpo. Sons médios podem ser encontrados na batida das mãos em diversas partes do corpo, como coxas, braços, costas, etc, com exceção da caixa torácica que é mais grave. Os sons mais agudos e estridentes podem ser encontrados nos diversos timbres de palma de mão, palmas de boca (que utilizam a cavidade bucal para a ressonância) e estalos de dedo. Mas nada disso é regra. Cada pessoa tem um corpo diferente e o mais legal é ver que cada corpo produz um tipo de som.

Se quisermos, podemos experimentar agora mesmo uma rápida transposição dos sons da bateria para o corpo. Pegue um groove, organíze-o em timbres graves, médios e agudos e transponha pra os timbres do corpo. Este é um dos possíveis caminhos de pesquisa na percussão corporal para quem já está familiarizado com os sons da bateria e como ela funciona.

Site Batera: Quanto tempo ficou no Barbatuques?

Pedro: Na verdade, eu nunca fui dos Barbatuques. Sempre fui muito fã dos Barbatuques e fiz parte do grupo de estudos deles, coordenado pelo Fernando Barba. No grupo de estudos do Barba, comecei em 2006, estudei durante um ano e depois viajei pra Inglaterra, onde morei um ano e meio. Quando voltei pro grupo de estudos, em 2009, nunca mais saí. Hoje em dia, o grupo chama FRITOS e eu sou um dos coordenadores, ao lado de Ronaldo dos Santos e Cadu Granja, meu ex-professor. Lá a gente desenvolve um trabalho muito especial, com exercícios de coordenação motora, musicalidade, percepção e muito mais.

Site Batera: Como foi a mudança entre um grupo e outro? Houve alguma dificuldade?

Pedro: O STOMP é um grupo que trabalha com uma exigência alta em cima do artista, e é também por isso que o espetáculo é bom. Nas minhas experiências prévias ao STOMP, tive contato com todas as ferramentas que são usadas no show: percussão, dança, teatro, malabarismo, etc. Porém, nunca havia experimentado tudo ao mesmo! Esse aspecto elevou muito a qualidade das minhas habilidades, inclusive a capacidade de coordenação motora e concentração.

A entrada no STOMP foi um desafio, também, na área técnica da percussão corporal. Porquê a minha técnica era baseada na técnica dos Barbatuques, tive que adaptá-la ao novo estilo. Basicamente, no STOMP, há menos artistas no palco, os sons tocados são os sons mais volumosos do corpo e a composição musical se estrutura em diferentes linhas rítmicas. A linhas são complementares e tocadas cada uma por um integrante. Cada linha se combina com a outra para resultar na união de todas e na construção da música. Já no trabalho dos Barbatuques, de maneira geral, podemos identificar os músicos tocando freqüentemente em uníssono, ou eu naipes, e isso dá mais volume mesmo para timbres sutis e delicados, que não têm tanto espaço no show do STOMP.

Site Batera: O Stomp tem a dramatização na dança, coreografias mais elaboradas, em relação ao Barbatuques que é um grupo apenas de percussão corporal. Você já havia trabalhado com a dança anteriormente?

Pedro: O STOMP e o Barbatuques são trabalhos completamente diferentes, inclusive no quesito filosófico. O STOMP é um mega show. O Barbatuques é um grupo experimental. Os dois têm trabalhos muito interessantes e são muito bons, cada um em sua proposta. Mesmo assim, eles possuem a percussão corporal em comum, sendo que no STOMP há apenas um número de percussão corporal, e essa é uma possível linha de comparação.

Na minha formação, tive experiências variadas em campos variados, e acho que isso sempre vai me dar pontos de vista complementares sobre, inclusive, as linguagens artísticas. O caráter teatral e a presença da coreografia, do movimento, são qualidades com as quais eu já havia tido contato antes de entrar no show do STOMP. Para alguma pessoas, chega a ser difícil definir se o espetáculo é um show de percussão, se é dança ou se é teatro. Talvez nem haja a necessidade de separarmos as linguagens. O importante é perceber que a mistura ou não-separação são caminhos muito interessantes para o desenvolvimento artístico.

Pelo fato de eu sempre me jogar em situações que não necessariamente fazem parte da minha zona de conforto, consegui experimentar diversos aspectos das linguagens artísticas. Também pela minha experiência no curso de Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP), tive contato com a contaminação e hibridez possíveis de serem desenvolvidas nas pesquisas artísticas, e isso me deu uma boa noção. Me considero engatinhando em muitas delas, mas isso só me estimula cada vez mais. Como é bom não saber! Admitir que você não sabe algo é a chave para o aprendizado e o desenvolvimento.

Site Batera: Quem cria as coreografias do Stomp?

Pedro: Quem trabalha na parte principal de criação do show são os criadores e diretores do show, Luke Cresswel e Steve McNicholas. Mesmo assim, há bastante espaço para improvisação, não só cênica, como também musical. Em praticamente todos os números que fazemos, há partes “escritas”, onde é preciso seguir à risca a partitura musical ou de movimento, e há partes de criação própria e improvisação.

Em qualquer uma das condições, o tônus muscular, a concentração e o reflexo têm que estar bem afiados, porquê trabalhamos com muito movimento e, se algo dá errado, alguém pode sair seriamente machucado. No show, não só tocamos com objetos dos mais variados tamanhos e materiais, mas também nos movimentamos muito, pulando, arremessando, correndo, subindo, descendo. Pra isso, precisa haver bastante entrosamento, ensaio, seriedade e concentração.

Site Batera: Porque você escolheu a Inglaterra para estudar música?

Pedro: Eu fui para Inglaterra depois de acabar o colegial, porque não sabia o que fazer de faculdade. Nessa época, já trabalhava profissionalmente com percussão mas não havia estudado muita teoria. Sabia que gostava da música só que não tinha certeza se queria fazer faculdade nessa área. Então, fui pra Europa, estudei inglês, viajei e encontrei na Inglaterra um curso de música muito bom na Canterbury Christ Church University, universidade com tradição musical de alta qualidade. Era um curso intensivo de um ano, onde as matérias cobriam aspectos da música completamente diferentes uns dos outros e, ao mesmo tempo, complementares. Ter feito este curso, pôde me introduzir a universos da música que eu ainda não conhecia, inclusive à teoria musical.

Ao longo da vida, acho que fui quebrando preconceitos e percebendo que conhecimento nunca é demais. Sempre é muito válido você desenvolver pontos de vista diferentes sobre o seu material de trabalho, e expandir os interesses para além da sua área específica só vai enriquecer e melhorar a qualidade do seu trabalho. Vai seu modo de ver a arte e de ver o mundo.

Site Batera: Fale um pouco sobre seus projetos a atividades paralelas.

Pedro: Neste momento, estou em Londres trabalhando com o show do STOMP, entre outros projetos. Inclusive, se alguém passar por aqui, venha dar um “oi” no show! Fora isso, participo ativamente no Centro Acadêmico do curso de Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP), onde a gente organiza eventos super interessantes. Tenho coordenado, agora à distância, o grupo de estudos de música/percussão corporal FRITOS, ao lado do Cadu Souza e do Ronaldo dos Santos, e continuo também minha pesquisa individual com as relações entre som e movimento. Além disso, desenvolvo meus textos abordando assuntos relacionados a música, som, corpo e movimento, publicando artigos no meu próprio Blog, no Blog dos FRITOS e, logo, começarei a escrever aqui no BATERA.COM.BR!

Site Batera: Tem alguma previsão para o Stomp se apresentar no Brasil?

Pedro: O STOMP tem 4 companhias espalhadas pelo mundo: turnê americana, Nova Iorque, turnê européia e Londres. No Brasil, e na América do Sul, o show costuma se apresentar de dois em dois anos, e a companhia que atua nessas áreas é a turnê americana. A última vez foi no final de 2010, e é possível que haja uma próxima turnê passando pelo Brasil em 2013, mas não posso garantir com certeza. Eu tenho trabalhado para a turnê européia e agora para o elenco de Londres, mas se eu souber que irão ao Brasil, serei o primeiro a pedir transferência! hahaha

Aqui vão os links das referências que fiz ao longo do texto:

Site pessoal – https://pedroconsortebr.wordpress.com

Meu Blog – http://corposonoro.wordpress.com

Artes do Corpo (PUC-SP) – http://comunicacaodasartesdocorpo.wordpress.com

STOMP – http://stomp.co.uk

Barbatuques – http://barbatuques.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s