Dicas para um desenvolvimento profissional

Primeiro, preciso enfatizar que não há segredo ou fórmula pra nada, muito menos para o desenvolvimento profissional. Alguns caminhos já foram percorridos, testados e são mais conhecidos do que outros, mas você sempre vai poder traçar a própria rota. Pensemos neste texto como sugestões, e não regras.

Estas aqui são possíveis maneiras de você organizar a sua vida profissional e, como já disse, não são as únicas, mas pelo menos poderão te dar uma linha de raciocínio e estimular você a fazer uma reflexão sobre como lidar com o próprio material de trabalho. Todas essas dicas podem ser aplicadas a qualquer profissão e, para cada uma, você terá que adaptá-las às condições específicas de cada área, mas a lógica será sempre a mesma e, possivelmente, te ajudará a enriquecer a qualidade do trabalho.

Muitos de nós, principalmente das áreas das artes, vamos desenvolvendo a vida profissional de uma forma instintiva, sem muita organização e planejamento, o que geralmente vem acompanhado da falta de uma estrutura como esta que vou apresentar. Na prática, muitas das categorias aqui mostradas estarão misturadas umas com as outras, mas, por agora, iremos separá-las para poder entender e aprofundar cada uma. Tenho a impressão de que esta configuração poderá te ajudar a organizar e direcionar suas energias, investindo em pontos-chave.

A estrutura proposta aqui vai se basear em três pilares: Estudo, Produção e Articulação. Cada um será complementar ao outro e vai alimentar a estrutura como um todo, conforme for sendo desenvolvido. Muitas vezes, a gente acaba se dedicando somente a um ou dois deles e deixa o terceiro de lado, o que pode comprometer a linha de organização. Então, o ideal será investir de uma maneira balanceada nos três e não deixar um ou outro tomarem conta da sua atenção. Assim, você fará com que um alimente o outro e sua vida profissional seja construída sobre uma estrutura mais versátil.

É difícil identificar a razão pela qual uma carreira não se desenvolve ou se desenvolve menos que outra, até porque existem maneiras diferentes de entendermos “desenvolvimento” e “sucesso”, mas, provavelmente, dentro desta lógica, a condição ideal para trabalharmos será o equilíbrio do investimento nos três pilares. Se pensarmos dentro desta estrutura, é muito mais fácil identificar exemplos de profissionais que têm um ou dois pilares bem desenvolvidos, e deixam de prestar atenção ao terceiro.

Muita gente tem ótimos contatos, se articula bem, é arrojado e sabe se virar nas conversas, mas acaba não tendo um desenvolvimento técnico e musical tão rico. Ou também existem aquelas pessoas super dedicadas, que estudam o dia inteiro e são capazes de tocar coisas incríveis, mas não tem muita visibilidade no mercado. Ou então, aquela pessoa que produz bastante, gravando discos, fazendo shows, gravando vídeos, escrevendo, compondo, mas tem pouco desenvolvimento de conteúdo consistente para expor e acaba apresentando um nível raso de consistência musical. Como a vida não funciona sob fórmulas, é difícil diagnosticar o porquê de uma carreira não se desenvolver, mas fica aqui a desconfiança de que um investimento equilibrado nos três pilares irá ajudar um profissional a ter a sua carreira alavancada.

Abaixo, cada pilar será explicado e subdividido em outras categorias. Você também pode criar as suas próprias subdivisões. Estas, por enquanto, são as que mais satisfizeram a organização da estrutura. Vamos começar.

PILAR 1: ESTUDO

O estudo aqui será entendido pela prática de observar, analisar e procurar conhecer o material de estudo, podendo ser realizado de várias maneiras. A prática de estudar e aprender será importante, inclusive, cognitivamente, pois o fluxo elétrico do cérebro funciona com muito mais fluência se estimulamos os neurônios de maneiras diferentes.

Muitas vezes, quando concluímos cursos oficiais de formação especializada, como conservatório, ensino superior, ou mesmo quando começamos a trabalhar profissionalmente, a nossa atenção com os estudos diminui. É muito fácil a gente cair numa rotina de vida, onde não há nenhum tempo reservado para estudo, o que compromete esta estrutura. Às vezes, por uma falsa ideia de que as outras atividades já bastam, ou simplesmente pelo esquecimento, deixamos de lado os estudos e acabamos comprometendo o nosso desenvolvimento, pois este espaço vazio influencia diretamente a estrutura proposta.

ESTUDO ESPECIALIZADO:

aqui, a gente vai entender o estudo como aquele estudo do material que está direta e explicitamente relacionado com o nosso trabalho. Pra você que toca um instrumento, por exemplo, bateria, dentro desse pilar, terá como sugestão pesquisar tanto tópicos mais práticos, quanto mais teóricos.

Por exemplo, se for desenvolver um estudo mais teórico, pode começar, não só pela teoria musical, mas também pelo estudo da história do instrumento, como ele é usado em diferentes culturas, quais são os diferentes estilos, estudo da música, do som, da matéria prima do seu trabalho, etc.

Se for desenvolver um estudo mais prático, pode começar pelo estudo de técnicas já existentes ou ainda pode pesquisar novas possibilidades técnicas, criando a sua própria identidade. O mais interessante será se você conseguir desenvolver um estudo que tenha característica práticas e teóricas igualmente balanceadas.

ESTUDO COMPLEMENTAR:

nesta categoria, estamos falando dos objetos de estudo que não estão, necessariamente, relacionados de maneira direta com o seu material de trabalho, mas que pertencem ao mesmo universo e/ou possuem alguma relação complementar.

No caso da música, se você toca bateria, seria interessante, como sugestão, estudar outro instrumento musical, e mais interessante ainda se ele fosse melódico e harmônico, pois seria um instrumento de natureza complementar e te daria outro grau de percepção da música. Esse estudo vai enriquecer a sua atividade principal e diversificar a maneira com a qual você enxerga o seu material de trabalho e universo profissional, mudando, inclusive, o jeito que você toca.

ESTUDO EXPANDIDO:

esta categoria é uma das mais interessantes. Este é aquele estudo que, à primeira vista, não tem muito a ver com o seu material de trabalho, mas vai influenciar de maneira significaste no desenvolvimento da sua atividade principal. Este estudo expandido engloba qualquer tipo de estudo. Qualquer mesmo!

Se pensamos sempre dentro dos mesmos padrões de raciocínio, a compreensão e o entendimento ficarão mais restritos do que se inovarmos o jeito que estimulamos o pensamento. Ao estudar outras áreas, você está se estimulando a pensar de maneira diferente, por meio de outros caminhos de raciocínio, e, na sua atividade profissional, essa prática vai enriquecer seu conteúdo de trabalho. Além disso, o estudo expandido vai fazer com que seu material contamine-se pelas outras áreas e te surpreenda com os resultados. Essa contaminação vai proporcionar olhares novos sobre a música, insights e ideias criativas, pontes entre universos diferentes, identidades musicais diversas e uma compreensão única do seu ramo.

 

PILAR 2: PRODUÇÃO 

A categoria de Produção vai englobar tudo o que você criar. As formas de se produzir são inúmeras e, no mundo da música, há diversas maneiras de se produzir conhecimento, por exemplo: nos estudos e práticas, composições, pesquisas, shows e etc. Você estará produzindo também enquanto estiver pesquisando novas formas de tocar, novas formas de compor ou de pensar sobre o seu trabalho.

As produções musicais de caráter mais prático são sempre importantes, mas muitas vezes acabam se perdendo de alguma forma, por falta de registro. Por isso, o registro da sua produção vai te ajudar nesta estrutura. Os registros podem ser feitos de várias maneiras, inclusive por meio da variedade de recursos tecnológicos disponíveis. Entre os recursos mais usados: gravação de áudio, escrita de partituras, gravação em vídeo, registro em forma de texto, etc.

PRODUÇÃO REGISTRADA:

quando fizer qualquer tipo de registro da sua produção por meio de gravações, é sempre importante lembrar-se de certas dicas, por exemplo: quando ouvir a gravação, não queira se matar pelos erros cometidos. Ela será só uma gravação do seu processo e é importante  que você leve em conta os seus limites, para inclusive poder expandi-los.  Preste atenção no que você consegue tocar, não no que você não consegue.

PARTITURA:

o registro em forma de partitura é um recurso bastante útil e é uma ferramenta única nas formas de registro. A partitura possui um vocabulário de códigos vasto e torna possível um detalhamento específico da ideia musical. Ela é importante também, pois permite que você relembre mais tarde uma produção, sem ter que depender da memória. Se você faz o registro em partitura, usando os códigos e detalhando ao máximo, vai conseguir retomar o estudo mais tarde e se reaproximar daquela ideia inicial.

VÍDEO:

Para alguns bateristas, a performance visual também é um elemento a se levar em conta, e, no registro em vídeo, você poderá ter também uma boa noção de como a performance irá parecer sendo vista de fora. Além da noção visual, o vídeo também é uma maneira de registrar o estudo, inclusive para você conferir os elementos técnicos e musicais. Estes não serão aqueles que você vai colocar no youtube, pelo menos, não por enquanto. A questão é que ainda estamos na parte da produção e do registro, então talvez não seja interessante expor esse material de registro do processo, a não ser que o material seja preparado especialmente para este tipo de exposição.

TEXTO:

registros em forma de texto não precisam ter a pretensão de virar um livro best seller. Eles podem ser apenas uma forma de deixar marcadas a ideias que passam pela sua cabeça. Então, tente levar com você e deixar disponível um caderninho, onde possa registrar ideias para retomá-las mais tarde. Qualquer ideia, por mais inútil ou aparentemente impossível de ser realizada, vale a pena ser registrada. Quando você tiver já uma lista de ideias, vai revisá-la e, não só se surpreender, mas também se inspirar  e poder desenvolver algumas delas.

PILAR 3: ARTICULAÇÃO

Para muita gente que trabalha no campo das artes, é sempre um dilema cuidar da parte profissional, principalmente quando pensamos em divulgação, marketing, publicidade e propaganda do seu material de trabalho. Parece que este processo todo, geralmente realizado por nós mesmos de uma forma instintiva, demora e toma o nosso tempo precioso, durante o qual poderíamos estar estudando, ensaiando, pesquisando, etc. Porém, se você montar uma estrutura organizada que não precise de uma alta frequência de manutenção, verá resultados muito positivos em relação a esse pilar da estrutura profissional. Este será o pilar onde você vai expor o material que produziu, se relacionar com outros profissionais e projetar o seus interesses. Dentro desta categoria, podemos criar outras subdivisões e as articulações podem ir muito além destes exemplos, pois este é apenas um ponto de partida.

REFERÊNCIA E CONTATO:

É muito importante você saber e ir conferir o que as outras pessoas estão produzindo, pois, quando você vai conhecer o trabalho de alguém, há várias oportunidades que podem ser aproveitadas. Ao ir conferir outras produções, você vai poder desenvolver uma série de aspectos, por exemplo: noção de como está o mercado, noções críticas, técnicas e conceituais em relação à área, chances de estabelecer conexões e contatos com outros profissionais, inspirações e novas soluções para seus próprios trabalhos, fortalecimento e apoio da classe profissional em desenvolvimento, etc.

PUBLICAÇÃO:

As publicações serão os momentos em que você organiza a sua pesquisa e estudo para mostrá-la a outras pessoas, e podem ser realizadas em diversos ambientes, desde na internet, até em forma de outras vias da comunicação, livros, CDs, oficinas, apresentações, etc. Muitas vezes não é interessante para outros profissionais o acompanhamento integral do material de pesquisa e desenvolvimento. A organização do material desenvolvido na pesquisa serve como uma ponte entre você e outra pessoa que se interessa pelo assunto. Também é importante lembrar que quando você publica algo, aquele material expõe você, o seu trabalho e de alguma forma representa a sua identidade profissional.

INTERNET:

A internet é uma ferramenta que pode ser muito útil na articulação da vida profissional e existem casos onde este recurso faz uma diferença crucial no desenvolvimento do trabalho. Como todas as outras opções de meios de comunicação, ela não é uma ferramenta obrigatória, mas poderá te ajudar se você aprender a usá-la de maneira útil e eficiente.

Para maximizar a qualidade do seu tempo gasto nesse investimento, tudo o que você for desenvolver dentro desta estrutura vai ter que fazer parte de uma rede coerente. Para essa rede funcionar de forma coerente, ela vai precisar ser trabalhada dentro de um circuito conectado. Por exemplo: se você tem um endereço de e-mail e um site, este circuito precisará proporcionar acessos de via dupla. Botar o seu endereço de e-mail no site é uma boa estratégia, mas para construir um circuito fechado, é importante colocar o seu site na assinatura do seu e-mail. Assim, você vai criar uma via de mão dupla, onde alguém pode acessar o seu e-mail a partir do seu site, e alguém pode achar o seu site a partir do seu e-mail.

Outra dica boa sobre a internet é disponibilizar o seu material, não só enviando para as pessoas, mas também criando a possibilidade das pessoas acharem o seu trabalho. Fazer a divulgação só por e-mail é uma estratégia restrita, no sentido de só acessar as pessoas que você conhece. Se o material estiver disponível num site aberto, pode ser achado inclusive pelos mecanismos de busca do google, por exemplo. Você pode dar a oportunidade para as pessoas que ainda não te conhecem te acharem por conta da própria busca delas.

RECURSOS DA INTERNET:

BLOG/SITE:

Em um blog ou site, você vai poder juntar toda a sua produção on-line em um só lugar e organizá-la da maneira que quiser. Poste artigos, comentários, fotos, vídeos e faça daquele espaço o seu lugar de exposição oficial. Um lugar fácil e grátis para criar páginas pessoais e profissionais é o WordPress: http://wordpress.com

EMAIL:

Dica 1: no corpo estrutural do seu e-mail, você pode criar uma assinatura automática e, nesta assinatura, colocar dados de contato, como website, telefone e área de atuação. Ela servirá como um cartão de visitas anexo a cada e-mail que você mandar.

Dica 2: se fizer qualquer divulgação por e-mail, sempre insira uma nota dizendo para a pessoa que recebe o e-mail se manifestar se ela não quiser mais receber aquele tipo de divulgação. Assim, você não irá incomodar os seus contatos e queimar a sua credibilidade na internet.

Dica 3: quando divulgar algo para vários contatos, insira os endereços no remetente “Cco” (cópia oculta), para não expor cada pessoa que receberá a mensagem.

Dica 4: no Gmail você consegue mandar e-mails para até 500 pessoas ao mesmo tempo (Use Cco!).

MAILING:

Um bom recurso que somente acessará as pessoas interessadas pelo seu trabalho é a criação de um mailing, um grupo de e-mails. Por exemplo, no Google Groups,

você pode criar um grupo de e-mails e utilizá-lo para a divulgação dos seus eventos, publicações, avisos, etc. Lembre-se de configurá-lo para anúncios apenas, onde só você tem a permissão para enviar mensagens. Senão, todos poderão mandar mensagens para o grupo todo e isso pode virar um caos. http://groups.google.com

VIDEO:

A publicação de vídeos também é uma ferramenta muito útil na internet. O vídeo é um recurso ótimo na comunicação e pode ser usado para divulgar tanto shows já realizados, quanto eventos que ainda acontecerão, depoimentos e materiais organizados como portfólio.  Sugestões: Youtube e Vimeo.

FACEBOOK:

No Facebook você também pode criar uma página oficial para o seu trabalho e assim pode separar, se achar interessante, as publicações pessoas das profissionais. Para criar a sua página profissional, acesse: http://facebook.com/pages/create.php

AUDIO:

Você pode publicar as suas produções de áudio em sites que armazenam os arquivos e disponibilizam esse material para quem quiser ouvir ou, opcionalmente, baixar. Um site que tem funcionado bem nesse sentido é o Soundcloud. http://soundcloud.com

MYSPACE:

O myspace é um site onde você pode criar um perfil, com fotos, textos, vídeos, links e expor a sua produção musical. Ele funciona como um facebook, com a opção de você ter um perfil caracterizado especialmente para artistas. http://myspace.com

Esta estrutura foi baseada e configurações de organização que têm dado bastante resultado na área profissional e podem ser adaptadas para condições específicas de cada um. Acho que o mais importante é lembrar-se de investir de uma forma balanceada e curiosa. Vá atrás do que você não conhece, se interesse pelos trabalhos dos outros e reconheça os seus limites. Essa é a chave para você superá-los.

Espero que as informações sejam úteis. Mão na massa!

Dica: assista ao documentário “Profissão Músico”, pois nele questões importantes são levantadas e nos fazem refletir sobre a relação do músico com a sua profissão.

Escrito por Pedro Consorte e publicado no Batera.com.br

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