Descobrindo a música nos objetos

Ao longo da vida, a gente vai criando associações entre os objetos e as suas respectivas funções. Estas associações são assimiladas em várias situações, inclusive quando nos relacionamos diretamente com os objetos. Durante a relação direta com o objeto, a gente cria no corpo uma memória específica, podendo ser uma memória de caráter psicológico, motor, muscular, cognitivo, etc.

Memorizar estas relações entre objetos e suas funções é uma atitude natural e instintiva do ser humano, pois ela garante a automatização de certos raciocínios. O dia-dia seria muito mais trabalhoso se a gente tivesse que se questionar em relação à função de cada objeto com o qual nos deparássemos.

Baseados no raciocínio de automatização, a gente também tende a concluir que estas relações entre objeto e função são, muitas vezes, condicionais e exclusivas. Por exemplo, no caso da música: os instrumentos musicais são os objetos convencionalmente utilizados para produzir música, logo, para existir música, é necessário ter instrumentos musicais. Mas, será?

Quando comecei a participar do treinamento para me tornar integrante do show internacional STOMP, tive muitas (re)descobertas em relação ao mundo da música. A mais óbvia de todas foi que a música não dependia necessariamente de instrumentos musicais convencionais.

Tudo o que produz som pode ter seu som organizado dentro de uma estrutura musical, e isso eu já sabia, assim como qualquer criança curiosa que explora os sons dos objetos. Mas o que realmente me intrigou foi ver a exploração do som dos objetos sendo levada a fundo, em proporções profissionais e internacionais.

No princípio, mesmo com experiência prévia na área da percussão, tive dificuldades em muitos níveis diferentes, incluindo os níveis motores e musicais, porque não estava acostumado a tocar com objetos tão diferentes*.

*vassouras, caixas de fósforo, escovas, pás de lixo, tubos de borracha, pias, latas de tinta, cabos de martelo e cortina, panelas, extintores, latões, placas de rua, calotas, cadeiras, isqueiros, jornais, bolas de basquete, câmaras de pneu de caminhão, sacolas plásticas e de papel, latas, tampas de lixo, carrinhos de supermercado, etc.

O mais desafiador do treinamento para fazer parte do show foi perceber que o meu corpo já possuía um registro motor e muscular em relação àqueles objetos, mas essa memória não servia para o novo tipo de proposta. Agora, eles teriam que ser utilizados como recursos musicais e isso acabou desafiando muito o meu corpo e os meus padrões de movimento. Tive que desenvolver novas relações com os objetos, para poder encontrar suas possibilidades sonoras e transformá-las em música.

(RE)DESCOBERTAS

O processo de exploração do som depende de uma investigação apurada sobre cada objeto e isso, necessariamente, envolve uma relação de (re)conhecimento do material que está sendo pesquisado. Ao deslocar um objeto da sua função original para uma nova função, é como se você estivesse vendo o objeto pela primeira vez: precisamos (re)conhecê-lo e (re)descobri-lo. Só assim, conseguiremos ultrapassar os laços antigos e construir novos pontos de vista sobre o objeto e sua respectiva capacidade musical.

Com essa experiência no STOMP, descobri que cada objeto tem muitas particularidades e, quanto mais você explorá-lo de maneiras diferentes, melhor entenderá como ele reage. Uma vez que você descobre como ele reage, fica mais fácil musicalizar o seu som.

Mesmo no caso dos instrumentos musicais convencionais, você pode se dispor a sair do padrão técnico e redescobri-lo em suas várias possibilidades, quebrando as convenções construídas até então. Esta pode ser, inclusive, uma chave significativa para o músico descobrir novos sons e jeitos de tocar, enriquecendo seu repertório musical.

Quando me distanciei dos instrumentos musicais e comecei a investigar as possibilidades sonoras do meu corpo e dos objetos, acabei desenvolvendo técnicas diferentes e novos olhares sobre a música, o que mudou, inclusive, a minha maneira de tocar os próprios instrumentos musicais convencionais.

QUALIDADES E ESPECIFICIDADES

A memória corporal e a forma com que a gente se relaciona com cada objeto será sempre diferente e única. É uma combinação entre a singularidade do seu corpo e a singularidade daquele objeto. Cada material terá as suas próprias características físicas, que influenciarão na maneira com que ele se relaciona com seu corpo e produz os sons.

Um bom jeito de explorar os diversos aspectos de cada objeto é compará-los. Na comparação, a gente consegue identificar certas características, similaridades e diferenças que você não conseguiu observar em uma primeira impressão. Podemos comparar objetos iguais, feitos de materiais diferentes, ou objetos diferentes, feitos dos mesmos materiais. E por aí vai. Cada comparação trará um tipo diferente de percepção.

Investigue a identidade sonora dos objetos, sem pensar necessariamente em a sua função original. Você vai se surpreender com a variedade de sons que é possível descobrir.

Tenho trabalhado em uma continuação deste artigo, onde estou criando um roteiro de exploração dos sons dos objetos. Se você se interessa pelo assunto, fique ligado! E comente, abaixo, com suas sugestões e opiniões.

Abaixo, assista ao filme completo STOMP Out Loud, que explora em diversos ambientes os sons dos objetos, de maneiras rítmicas, musicais e cênicas.

Escrito por Pedro Consorte e publicado no Batera.com.br

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