Os “Rings Musicais” da televisão brasileira.

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Tudo o que criamos representa e, ao mesmo tempo, estimula uma visão de mundo. Quando criamos algo, seja um texto, um projeto, um produto, nossas ideias estão de alguma forma sendo concretizadas naquela criação. Porém, as criações não são apenas representações estáticas de ideias. Elas também tem movimento e estimulam no mundo o surgimento de mais ideias da mesma natureza.

No universo da televisão, os programas podem ser vistos como criações, que representam ideias e concetrizam interesses. Além de representar uma maneira específica de entender o mundo, eles também estimulam, nos espectadores, uma lógica que, muitas vezes, passa despercebida. No caso dos programas que se dizem descobridores de talentos musicais, é comum encontrar formatos que promovam a competição entre artistas, com a oferta de recompensar  em dinheiro, automóveis, contratos, projeção, o ganhador da disputa.

Camuflada pelo caráter tentador e apelativo do entretenimento televisivo, que muitas vezes apassiva e hipnotiza o telespectador, a lógica da competição faz com que as pessoas que assistem aos programas de batalhas musicais (Ídolos, The Voice, Superstar etc.) sejam estimuladas a pensar nessa mesma linha dos conteúdos exibidos: da disputa, da competição, do julgamento, do botão verde que aprova e do botão vermelho que reprova, da exclusão, da escolha do melhor e do pior, dos legitimados e dos ignorados, dos vencedores e dos perdedores. Não é à toa que, em sua grande maioria, estes programas vêm de formatos importados dos Estados Unidos, o grande promotor do american way of life (ideia de que todos precisamos nos tornar vencedores na vida).

Uma das maneiras mais eficientes de engajar o público da televisão parece mesmo ser a promoção de embates entre os artistas, para ver quem sobrevive, quem é o mais forte. O lugar da cooperação, da convivência, da inclusão, da diversidade, já está fora de moda, é brega e não dá ibope. Quando aparece na TV, é apenas no discurso que camufla o conteúdo, se dizendo valorizar a diversidade, para, no final, escolher um vencedor e eliminar os perdedores. Com base nesses princípios, o resultado musical do que é produzido nos programas, muitas vezes, entra na lógica do vale tudo pra ganhar, das performances exacerbadas, da corrida pelo ouro, do salve-se quem puder.

Mas, devemos sempre escolher um vencedor? Dá para medir e comparar estilos musicais dessa forma? Será que essa é a única maneira possível de apresentar na mídia de massa novos talentos musicais e artísticos? É esse tipo de proposta que extrai o que há de melhor em nós? Que outras lógicas podem ser aplicadas nesse meio? E, em outros ambientes, existem outras lógicas?

A janela para o maravilhoso e sedutor mundo da televisão tem o poder de amortecer o nosso senso crítico, a nossa capacidade de desenvolvimento de pensamentos e de construção de opiniões mais autônomas. Ela estimula a competição individualizada e desarticula nossas capacidades de engajamento social. Viramos todos recipientes do conteúdo da televisão. Talvez, seja por isso que exista tanta dificuldade de nos organizarmos socialmente e lutarmos pela melhora numa escala mais coletiva, pela transformação de proporção nacional, estadual, municipal etc.

É importante pensar a respeito, para fazer com que estes valores produzidos pela TV não sejam incorporados automaticamente por nós, pois a lógica que polariza quem ganha e quem perde nos cerca, em muitos outros ambientes, contaminando a forma como pensamos, muito mais do que a gente pensa. O UFC, as Olimpíadas e a Copa do Mundo estão aí, por exemplo, representando valores e estimulando relações.

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