Música Corporal, Barbatuques e desdobramentos

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No Brasil, o desenvolvimento da percussão corporal como um universo específico de pesquisa e trabalho acabou surgindo de maneira mais vertical e significativa, a partir do desenvolvimento do trabalho do Barbatuques, criado, por volta de 1995, ainda sob a forma de um curso (“Rítmica Corporal”) e realizado na escola de música Auê Núcleo Musical, em São Paulo. Segundo João Simão, integrante do grupo, “Fernando Barba, Stenio Mendes e André Hosoi protagonizaram a consolidação de uma forma de ensinar música com o corpo, conhecida como Barbatuques.” (SIMÃO, 2013, p. )

Barbatuques é um núcleo artístico e pedagógico que investiga a percussão corporal. Esse trabalho começou com Fernando Barba e logo se transformou em pesquisa: a expressão musical por meio da exploração dos inúmeros sons que podem ser produzidos pelo corpo humano. (SIMÃO, 2013, p.2)

O Barbatuques já produziu CDs, DVDs, trilhas, espetáculos, cursos, treinamentos e, com todas essas atividades, se estabeleceu como praticamente o único grupo que aqui, no Brasil, de forma contínua, desenvolveu um trabalho focado, principalmente, na percussão corporal.

“Diferentemente de outros grupos que usam a percussão corporal como um recurso sonoro extra, o Barbatuques faz dessa linguagem o centro de gravidade de sua música.” (GRANJA, 2010, p.118).

“Referência internacional em percussão corporal, o grupo Barbatuques produz música orgânica utilizando o próprio corpo como instrumento musical. Melodias e diferentes ritmos musicais são criados a partir de efeitos de voz e da exploração de sons produzidos pelo corpo humano: palmas, estalos, batidas, mãos e pés em sintonia. […] Sua maneira singular de fazer música e as inúmeras possibilidades de extrair sons do corpo tornou o grupo reconhecido no meio artístico, corporativo e pedagógico. […]

Desde a fundação do Núcleo, mantém um complexo trabalho de pesquisa sobre a linguagem sonora corporal, descobrindo quantidade de sons suficiente para transformar o corpo em uma verdadeira orquestra sinfônica. […] O Barbatuques parte do princípio que cada indivíduo tem um corpo sonoro único e que encontra no coletivo a possibilidade de produzir melodias e harmonias, através da percussão corporal. […] (BARBATUQUES).

O Núcleo atua por todo o Brasil e no exterior, realizando shows e workshops, direcionados a muitos tipos de público: outros grupos artísticos, empresas, escolas, fundações culturais, Ongs e universidades. Já realizou parcerias com artistas como Bobby McFerrin, Camille, Keith Terry, One Giant Leap, Marku Ribas, Stenio Mendes, Chico César e Badi Assad, e vem participando de todas as edições do IBMF (International Body Music Festival), organizado pelo músico e pesquisador Keith Terry, pioneiro da percussão corporal.

Ao longo dos quase vinte anos de existência e da criação de tantos produtos, o Barbatuques ganhou grande projeção nacional e internacional, inspirando muitos projetos pedagógicos e artísticos.

“Decidi colocar a faixa de um CD do grupo Barbatuques realizando percussão corporal. Pedi para que fossem identificando os sons do corpo. Alguns gostaram muito”. (FERNANES, 2012, p.99)

Após assistirem o “Corpo do Som”, do grupo Barbatuques, através do data show , foram feitas algumas práticas orientadas de experimentação com os sons do corpo. Os alunos exercitaram o repertório de percussão corporal, inspirados no show do grupo, praticaram exercícios de pulsação, produziram diferentes sons com o próprio corpo e, em grupos, criaram movimentos sonoros, os quais eram repetidos por toda a turma. Em seguida, a turma foi dividida em quatro grupos e cada grupo produziu um som diferente, intercalando um som vocal com um som corporal. (CHICHETO E ARALDI, 2009, p.17)

Além de shows, o grupo também organiza workshops e oficinas para ensinar técnicas de percussão corporal. Colégios, empresas e organizações já participaram. “As escolas procuram o Barbatuques porque muitas não têm condições de comprar materiais e a percussão corporal virou uma alternativa interessante e barata para as instituições”, declara Andr Hosoi, co-fundador do projeto. Com o aprendizado da percussão corporal, as pessoas desenvolvem habilidades, conhecem os limites de coordenação e tentam superá-los.

Além de ensinar a importância do trabalho em equipe. A identificação do público infantil com a percussão corporal incentivou o grupo a desenvolver um projeto voltado para crianças. O “Tum Pa” foi criado em 2012 e exibido em turnês pelo Brasil e Europa. “A técnica usada nos shows sempre atraiu o público infantil, sabíamos da proximidade entre a atividade corporal e as crianças”, ressalta André. Os gestos realizados durante as apresentações se assemelham as brincadeiras feitas pelos jovens, aumentando a identificação deles com os espetáculos.

A dinâmica dos shows torna cada apresentação única. A interação realizada com a plateia vai determinar o tipo de exibição que o grupo vai fazer. O Barbatuques convida o público a tentar reproduzir os sons feitos no palco. “ como se você estivesse em um show de rock e toda a plateia tivesse uma guitarra na mão”, comenta o co-fundador. (REDE GLOBO)

O alcance do trabalho do Barbatuques e a projeção de suas produções artísticas contaminam, estimulam e alimentam, tanto outros grupos já existentes, quanto a criação de novos grupos. A reverberação dos materiais produzidos, durante estes 20 anos de carreira, e o desdobramento das atividades pedagógicas que o Barbatuques oferece servem, muitas vezes, como ignição artística e pedagógica para novos projetos, que, a partir desta inspiração, começam a desenvolver o seu próprio trabalho, baseando-se, não só na técnica desenvolvida pelo grupo, mas também na maneira de ensinar e trabalhar que o Núcleo propõe.

Durante esta contínua jornada, muitos grupos se contaminaram, em níveis diferentes, pela pesquisa do Barbatuques. O NOP (Núcleo Orgânico Performático), que se originou, a partir das oficinas ministradas por Stenio Mendes e Fernando Barba na ULM (Universidade Livre de Música) Tom Jobim, em São Paulo, é um exemplo de grupo artístico que teve como ponto de partida a pesquisa do Barbatuques, ainda no início de seu desenvolvimento.

Outro exemplo é o Grupo Fritos, grupo de estudos de música corporal, originalmente criado por Fernando Barba, em 2003, na escola de música Auê Núcleo Musical, em São Paulo. Passou por muitas transformações e, apesar de tantas mudanças na organização e na coordenação, permanece, até hoje, com estudos semanais regulares, promovendo, também, outras atividades, como a Fritura Livre, um encontro aberto e gratuito que propõe dinâmicas de música corporal em praças e espaços públicos.

Além destes, outros projetos também se nutriram a partir da pesquisa do Barbatuques, desdobrando-se em grupos artísticos, grupos de estudos e projetos sociais, como, por exemplo, Batucantante (SP) e Tiquequê (SP), destinados ao público infantil, Karallargá (SP), Stallo (CE) e Wanamusiki (MT), grupos musicais, Batucadeiros (DF), TucBoys (SP), Música Para Todos (SC) e Embatucadores (SP), vinculados a projetos sociais, Batukatu (RS) e Grupo de Estudos do Barba (SP), grupos de estudos de música corporal.

Em 2013, o Barbatuques participou da gravação da trilha da superprodução de Hollywood, o filme de animação infantil Rio2, dirigido por Carlos Saldanha. No mesmo ano, o grupo também participou da gravação da trilha de um outro filme de animação, O Menino e o Mundo, dirigido por Alê Abreu  (…) participou do processo de produção da vinheta de final de ano, produzida pela TV Globo e exibida durante o período de férias escolares, reforçando, em escala nacional, a projeção do grupo e da percussão corporal.

*Esse texto é um trecho da monografia “Por mais relações porosas: repensando a Percussão Corporal, a partir da Teoria Corpomídia

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