Música Corporal, Individualidades e Autonomia

body-percussion

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Dentro da percussão corporal, podem-se identificar formas de trabalhar que caminham, tanto na direção de horizontalizar e tornar mais porosas as relações, quanto na direção de torná-las mais hierárquicas e impermeáveis. Muitas vezes, estas maneiras de trabalhar encontram-se, contraditoriamente, no mesmo trabalho, possuindo, em cada caso, níveis diferentes de presença.

A princípio, a decisão de trabalhar com informações universais pode parecer democrática, pois se propõe a localizar todos os participantes dentro de um mesmo patamar, defendendo, muitas vezes, uma lógica de “direitos iguais”. Porém, a universalização das técnicas ou das maneiras de trabalhar com a percussão corporal torna-se, na verdade, uma forma de tornar as relações mais impermeáveis, pois ignora as individualidades de cada sujeito e se aproxima da ideia de que somos todos tábulas rasas.

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Quando se entende o corpo como uma tábula rasa, abre-se espaço para as generalizações que impermeabilizam as relações. PINKER (2004, p.51) chama atenção à noção de tábula rasa presente na percepção de ELWOOD, em relação aos processos de aprendizado:

“Barreiras em muitas áreas de conhecimento estão sucumbindo ao novo otimismo segundo o qual qualquer um é capaz de aprender qualquer coisa. […]”.

NARANJO (2012, v.1, p.22) mantém a lógica da tábula rasa, mas, em oposição a ELWOOD, que considerava todos capazes de aprender qualquer coisa, vai na direção oposta:

“When we are working with students between the ages of about 12 and 16, we must bear in mind that their concentration and attention skills, as well as their psychomotor abilities are not great.”

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A generalização é uma forma de entender o mundo que apaga as individualidades, porém, a partir da noção de porosidade nas relações, é possível cogitar outras formas de balancear estes dois polos. É necessário discernir dois processos: o primeiro é a homogeneização das singularidades, e o segundo é a percepção de características comuns à maioria. Para isso, propõe-se, aqui, investir na percepção de que o corpo está em constante transformação.

Segundo GREINER (2006, p.108), “Este não-lugar onde nada existe de modo acabado, mas as possibilidades de relação se fazem presentes o tempo todo, reinventa a noção de universalidade, de nacionalidade e do que significa estar no mundo”. Se não podemos generalizar as capacidades das pessoas, isso se deve não só a diferentes experiências que cada um teve durante a vida, mas também a capacidades que já estavam, do ponto de vista genético, presentes no organismo.

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A ideia de que o corpo é uma tábula rasa e que ela pode ser preenchida sugere que, nas relações entre professor e aluno, por exemplo, é necessário haver uma transmissão de conhecimento, do professor ao aluno. O aluno está vazio e o professor o preencherá com seus depósitos de informações. O corpo, neste caso, é entendido como corpo passivo, corpo- recipiente que receberá e armazenará o que nele está sendo depositado:

La capacidad de comunicación, entendimiento y trabajo en colaboración es vital para todo ser humano. En el ámbito educativo, de nada sirve saber mucho si no se sabe transmitir. Es como tener el mejor producto del mundo sin saber venderlo, sin darle la salida que se merece. […] El alumno debe ver al docente como una persona segura de lo que dice, con autoridad, con carisma y capaz de transmitir. (NARANJO, 2012, v.1, p.63) 38

Tanto em propostas pedagógicas quanto em propostas profissionais, podem-se exercitar leituras diferentes dos procedimentos (exercícios, jogos, dinâmicas, treinamentos) utilizados. Contudo, é importante atentar-se à consciência de que toda técnica estimula não só uma ação específica, mas também uma visão de mundo que contamina as relações entre os envolvidos. Tanto os conteúdos dos procedimentos (exercícios, jogos, dinâmicas, treinamentos) quanto as formas de trabalhar ou dar aula, estimulam relações políticas entre as pessoas que, de acordo com a lógica proposta, têm um maior ou menor espaço para se colocarem de forma ativa.

*Esse texto é um trecho da monografia “Por mais relações porosas: repensando a Percussão Corporal, a partir da Teoria Corpomídia

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