Música Corporal e a Falta de Recursos

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(…) Além de aparecer na cultura popular, a percussão corporal também aparece em outros ambientes, como no caso dos ambientes pedagógicos, nos quais os professores de música que não possuem instrumentos ou recursos à disposição acabam recorrendo a este tipo de prática, como uma alternativa de urgência.

A proposta inicial era promover aulas de violão, teclado e bateria. A igreja convidou o músico Ricardo Amorim para realizar as aulas de prática de conjunto, mas diante da falta de instrumentos para tal prática educativa, iniciou-se, então, um trabalho de educação musical a partir da percussão corporal. (MARTINEZ, 2013, p.102)

Repete-se muito, no universo da percussão corporal a ideia de que esta é uma prática que, não só torna mais fácil o acesso à música, por não depender diretamente de instrumentos musicais, mas também que não depende de conhecimentos musicais prévios para acontecer. A seguir, há três exemplos de falas que se aproximam deste tipo de entendimento.

“Pelo fato de usar os sons do corpo sem um instrumento musical, a música fica mais acessível a qualquer pessoa sem a necessidade de ser músico ou não.” (SIMÃO, 2013, p.31).

A música corporal […] tem algo bastante singular que possibilitar o acesso a este encontro com a música, com o corpo, com o som coletivo, por uma questão simples: o recurso musical que precisamos, além de nós mesmos, nossa disponibilidade para o coletivo. (SILVA, 2014, p.23)

A facilidade de acesso à linguagem musical, sem a intermediação de um instrumento ou de uma notação convencional, faz da percussão corporal uma prática acessível a qualquer pessoa, mesmo sem experiência musical prévia. (GRANJA, 2010, p.116)

O simples fato de não dependermos de instrumentos musicais não garante, necessariamente, o desenvolvimento de habilidades musicais por meio da percussão corporal. Há que se tomar cuidado com esta forma de discursar sobre a percussão corporal, porque ela pode dar a ilusão de que o professor que não possui os instrumentos musicais será capaz de lidar com a ausência de recursos, simplesmente pelo fato de saber que é possível produzir-se música a partir dos sons do corpo.

A percussão corporal como um recurso nas aulas de música é muito útil, mas a qualidade da atividade proposta depende predominantemente da familiaridade e conhecimento que o professor tem com este tipo de prática. A utilização dos sons do corpo não garante, necessariamente, que o aprendizado será mais rápido e nem mais fácil. Tudo depende do conteúdo das aulas e da forma como elas são conduzidas.

Se pensarmos que o ensino musical poderia ter como base a voz e a percussão corporal ao invés de instrumentos musicais tradicionais, não mais haveria o empecilho em relação ao custo. Contudo, se partimos desse pressuposto, reduz-se a paleta de opções do educador musical e, mais do que isso, corremos o risco de que haja trabalhos de ensino de canto mal conduzidos, por profissionais despreparados, especializados, na verdade, em outro instrumento musical – muitas vezes, o violão e o piano, vedetes dos licenciados, dentre os quais muitos são alocados para o ensino público. (CASTRO, 2007, p.47)

*Esse texto é um trecho da monografia “Por mais relações porosas: repensando a Percussão Corporal, a partir da Teoria Corpomídia

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