Cooperar, compartilhar e viver

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(…)

(…) o aumento do grau de porosidade não deve ser associado à relativização ou homogeneização das individualidades ou das ideias. Aprender a escutar o outro tem como proposta justamente aprender a conviver na diversidade.

[…] como operar na diferença? Encarar as diferenças pede, ao mesmo tempo, por um olhar rigoroso e uma escuta disponível, ambos despidos de certezas e suposições pré-estabelecidas. Pois, o fato de alguém pensar ou falar diferente de nós não significa dizer que está contra nós; […]

Ações que visam atingir entendimentos e condutas consensuais empobrecem a complexidade pessoal e, consequentemente, a de seus decorrentes encontros. Assim sendo, toda tentativa de unificação dos discursos/ações reduz o campo das inteligibilidades possíveis.

No entanto, não podemos nos esquecer de que as estratégias capitalistas, voltadas para a geração de condutas socialmente desejáveis, promovem o isolamento do individuo, amplificam a competitividade e espetacularizam as experiências individuais. Infelizmente, a consolidação destes predicados comportamentais tem nos incapacitado cada vez mais para o corpo-a-corpo necessário à cooperação. (HERCOLES, 2014 p. 17)

Investir no potencial dos constantes e inevitáveis processos de troca e contaminação, propostos pela Teoria Corpomídia, torna-se uma estratégia que permite aumentar este tipo de porosidade nas relações entre as pessoas. Permeabilizá-las significa perfurar as membranas embrutecidas pelos hábitos dualistas e estimular uma maior reciprocidade de escuta, fazendo com que as polaridades vazem uma para dentro da outra, e que as pessoas percebam que a ação de contaminar o outro vem junto com a de ser por ele contaminada.

A escuta, nesse caso, se torna mais do que o uso de um de nossos sentidos, o da audição, pois se dilata para uma forma de nos relacionarmos também conosco, além da descoberta de como lidar os outros e com o mundo. Tudo isso junto, transforma as nossas práticas.

O ato de cooperar sem adormecer ou debelar as diferenças inevitavelmente acarreta conflitos e, sem dúvida, sua gestão requer uma boa e generosa dose de noções de alteridade; tornando-se imperioso olhar para o outro como outro e não como extensão ou espelhamento de nós mesmos ou de nossos desejos isolados. […]

Cabe lembrar que a possibilidade da cooperação está condicionada ao modo como percebemos este outro, assim, se faz necessário reconhecer que a ação de perceber é sempre incompleta e falível, isto devido às propriedades operacionais deste processo cognitivo, que compreende acertos e erros em seus processamentos. […]

A distinção encontra-se em baixa e ser atencioso em relação ao discurso do outro, manter-se sereno diante dos conflitos, reconhecer as semelhanças, detectar as possíveis zonas de convergência, aceitar e gerir as diferenças tornaram-se condutas raras em nossas práticas diárias, sobretudo, por nem sempre serem favorecidas pela sociedade moderna. Por esta razão, qualquer iniciativa que retome estes valores se constituirá como uma ação eminentemente política, mesmo que, micropolítica. (HERCOLES, 2014 p. 17)

Além de exigir como pressuposto a disponibilidade de ter que lidar com a alteridade, a porosidade também precisa ser exercitada de forma que preserve a integridade do sujeito. Ela deve ser entendida como uma proposta para o enriquecimento das relações e não como uma exposição ingênua à vulnerabilidade. A permeabilização e a impermeabilização também não devem ser polarizadas, e sim balanceadas, aproximadas. Este parece se mostrar como um caminho que responde às inquietações aqui apresentadas, porém, também é importante abrir espaço a outras proposições, diferentes desta.

O fundamental é identificar e permitir que as formas distintas de trabalhar com percussão corporal já existentes sejam capazes de produzir leituras sobre o que realizam e, a partir delas, se encaminhem para fazer com que as práticas se tornem experiências mais enriquecedoras.

As experiências se potencializam quando estimulam o crescimento, quando acontecem com prazer, gosto, quando vitalizam a vontade de viver. Quando irrigam o gosto por estar junto, por construir junto, o gosto pela diversidade. Acreditar nisso é condição para conseguir transformar as relações impermeáveis e hierárquicas em relações um pouco mais horizontais e porosas, sempre que for pertinente para abrir espaços e criar mais vida em nossas vidas.

[…] que a vida possa ser produzida por outras lógicas em um: “misto de inteligência coletiva, de afetação recíproca, de produção de laços, de capacidade de invenção de novos desejos e novas crenças, de novas associações e novas formas de cooperação” (Lazzarato apud SILVA, 2014, p. 34)

*Esse texto é um trecho da monografia “Por mais relações porosas: repensando a Percussão Corporal, a partir da Teoria Corpomídia

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