Música Corporal, Diálogos e Trocas

fmc-ibmf09-1151

(…)

A disposição para construir relações porosas, exercitando a escuta e o diálogo, não implica, necessariamente, na eliminação de hierarquias e no desaparecimento dos momentos de desenvolvimento vertical.

Não significa ter que eliminar métodos, sistematizações, propostas de imitação, de reprodução, ou ter que trabalhar apenas com procedimentos de criação coletiva. Indo justamente em uma direção contrária, ela tende a estimular um maior e melhor aproveitamento das singularidades e das relações que, mesmo quando trabalhadas dentro de uma hierarquia, podem se organizar de uma forma mais horizontal.

A dialogicidade não nega a validade de momentos explicativos, narrativos, em que o professor expõe ou fala do objeto. O fundamental é que o professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos. (FREIRE apud SIMÃO, 2013, p.66)

O modo como o artista se coloca em cena contamina a qualidade de sua própria presença, nela transparecendo o tipo de ligação que está estabelecendo com o público.

Quem é que está mais presente, aquele que está tocando ou aquele que está ouvindo? […] Comigo era estranho, me vinha uma for a que eu ia expressando uma vontade que não era só minha, que era uma vontade da platéia, e as cordas (violão) iam arrebentando, eu ia gritando, ia descontrolando, no bom sentido, porque eu ia me entregando. Aí, eu saía refletindo sobre isso. Eles falavam que era eu. Mas era um campo de força estranho. Às vezes, eu dava um grito aqui, e uma pessoa da platéia dava um grito no mesmo instante. […]

Muitas vezes, eu acho que quem está escutando está muito mais ativo do que quem está falando […] o campo da sensibilidade […] A atividade artística te trás esse campo de reflexão paralela. Você fica tentando se harmonizar. (Entrevista concedida por Stenio Mendes, em São Paulo, dia 5 de dezembro de 2013)

(…)

Em contextos artísticos e cênicos, quando se aposta nas trocas simultâneas, o aproveitamento da riqueza dos processos de compartilhamento de experiências ganha uma maior proporção, tanto entre os próprios artistas que estão em cena, quanto entre artistas e público. Este tipo de percepção pode, inclusive, fazer com que, a partir de informações que surgem de forma inesperada, o trabalho entre em contato com possibilidades não planejadas anteriormente, inspirando-se, incorporando novas informações e, possivelmente, contribuindo com novas ideias para futuros processos criativos.

Aqui cabe um alerta para os modos de verbalizar o que se passa em situações dessa natureza, pois o mais habitual é separar mental e físico como se o mental (ou o racional, o intelectual) acontecesse primeiro para controlar as ações do corpo (o físico).

“O racional, o intelectual, gosta de controlar o que vai acontecer. Com a partitura, tá tudo certinho, perfeito, ensaiamos quinhentas vezes […]. Tava tudo sob controle na minha mente, na minha memória. Chegou na hora, perdemos. Aconteceu alguma coisa que a gente perdeu, a memória não funcionou, deu um branco. Então, entramos num descontrole e, naquela situação, a plateia tava lá, começamos a improvisar.

Naquele esforço de ouvir e encaixar com o outro, surgiu um outro som, uma outra estética, e ficou muito melhor do que a gente tinha ensaiado e controlado. Nesse tipo de descontrole, a gente teve acesso a um show inesperado, com surpresas muito gratificantes: participação da platéia e a sensação de que tinha sido melhor do que a gente tinha ensaiado antes. Então, a gente começou a fazer um híbrido com as coisas controladas e organizadas, mas sempre quando desse a oportunidade, entrava com o descontrole dessa mente racional que quer controlar tudo. […] um provoca o outro, o outro vai entrando e o descontrole é bem vindo. […]

(…)

*Esse texto é um trecho da monografia “Por mais relações porosas: repensando a Percussão Corporal, a partir da Teoria Corpomídia

Para receber minhas novidades, clique aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s