Música Corporal, Relações de Poder e Escuta

danc3a7a-com_-br_

(…)

No caso do professor de uma aula ou do diretor de uma companhia, a reafirmação das hierarquias é uma tentativa de normatizar os perfis de quem se encontra submetido ao poder hierárquico mais alto.

(…)

Mesmo quando a relação hierárquica diminui o espaço de posicionamento de quem está submetido a níveis mais altos, os processos de produção de informação ainda continuam:

“[…] o corpo não pára de conhecer, de se relacionar com os ambientes e, neste sentido, nem quando está submetido a algo ou alguém torna-se um objeto passivo.” (BUTLER E FOUCAULT apud GREINER, 2006, p91).

Porém, é importante ter consciência de que há diferenças entre ambientes de maior e menor disponibilidade para trocas. Os níveis de contaminação e compartilhamento dependem também da disponibilidade dos envolvidos e do quanto se investe neste tipo de relação.

Quando se trabalha com propostas estruturadas sobre a ideia de disciplina, que se baseiam na radicalização da obediência, da imitação de um modelo e de um padrão, diminuem-se as forças políticas de quem está na posição de maior submissão. Segundo FOUCAULT (1987, p.143), “A disciplina ‘fabrica’ indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício”. Ele continua:

”A disciplina fabrica, assim, corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)” (FOUCAULT, 1987, p.119).

(…)

Quando construídas de forma mais horizontal, seja nas relações de poder entre professores e alunos, ou diretores e intérpretes, as relações entre os indivíduos alimentam processos de contaminação e troca que vão em outra direção. Sabendo do potencial deste tipo de relação, o professor, o diretor ou qualquer outra pessoa que esteja conduzindo uma atividade de treinamento, pode fazer uso da sua posição buscando valorizar as relações e estimular uma postura mais ativa entre os envolvidos.

O professor que planeja detalhadamente a sua aula e a ela se apega de forma inflexível, tendo como objetivo realizar metas previamente estipuladas, muitas vezes, deixa escapar a vitalidade do que está ocorrendo, sem atentar para as novas informações que estão sendo produzidas durante o decorrer da aula.

Mas quando a escuta do momento presente faz parte da aula, todos os que estão nela envolvidos se desenvolvem no sentido de perceber os constantes processos de troca e produção de informação que estão ocorrendo em tempo real. Esta disposição não exclui, evidentemente, a importância de se planejar uma aula, apenas ressalta a importância da escuta entre professor e alunos, transformando-a em parte dos conteúdos da aula. Porque é o seu desenvolvimento que ajuda a flexibilizar as posturas e atitudes de todos e abre a possibilidade de que adaptações ou redirecionamentos da atividade inicialmente proposta possam ocorrer ao longo da aula, transformando-a em uma atividade também criativa.

O corpo, quando deixa de ser visto como um recipiente e passa a ser entendido do ponto de vista da sua própria singularidade, se torna um corpo ainda mais vivo.

*Esse texto é um trecho da monografia “Por mais relações porosas: repensando a Percussão Corporal, a partir da Teoria Corpomídia

Para receber minhas novidades, clique aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s