A Humanização das máquinas e a Maquinização das pessoas

modern-times

Tem dois processos simultâneos rolando nesse exato momento. Um deles é a Humanização das máquinas. O outro é a Maquinização das pessoas. E a gente já sabe que essa inversão de papéis pode ser bem complicada, mas, com a velocidade do cotidiano e a quantidade de informações que atacam a gente todo dia, às vezes é difícil ter consciência disso.

Humanização das máquinas

As máquinas se mostraram grandes realizadores de certas tarefas. Em muitos casos, substituíram os humanos, proporcionaram lucro, ajudaram no setor financeiro das empresas, conseguiram produzir mais em menos tempo e o melhor de tudo: sem precisar de férias, plano de saúde e 13º (link). Após a descoberta dessa “produtividade” que existe em substituir humanos por máquinas, o ser humano sentiu falta de alguma coisa. E, logo descobriu o que era. Ele sentiu falta da sensação de conexão.

Uma pesquisa realizada pela faculdade de Harvard durou 75 anos e teve como principal objeto de investigação o tema “felicidade“.

A vontade de sentir felicidade é o que mais move as ações humanas. A diferença está em como isso se concretiza para cada um. Querer se distanciar da dor, do sofrimento, da tristeza e se aproximar do prazer, da felicidade, do bem estar é uma das características mais universais do ser humano. E, provavelmente, o principal motivo de você estar aqui lendo esse texto é que você também tem vontade de se sentir bem, a partir do que ele te proporcionar. Você deve estar aqui: ou pra descobrir alguma coisa nova, ou tá querendo confirmar algo que já pensava antes, ou tá querendo mais informações, ou tá querendo se distrair… Alguma dessas expectativas, se for atendida, vai fazer você se sentir bem. E é por isso que você tá aqui. Porque você quer ser mais feliz, não quer?

Essa pesquisa de Harvard concluiu que o que fornece mais felicidade ao ser humano é o sentimento de conexão e a qualidade das relações que ele tem (link). Por isso, logicamente, o ser humano começou a humanizar as máquinas. Porque, com essa transformação das máquinas, o ser humano sente mais conexão, se identifica mais e, consequentemente, se sente melhor no processo de interação com elas.

É muito provável que a convivência com os robôs vai virar, cada vez mais, uma coisa cotidiana. Já tem carros que estacionam sozinhos. Existem robôs que limpam casas. Drones que fazem serviço de entrega. E, no caso das máquinas mais humanizadas, existem muitas inovações às quais a gente já está se acostumando, mesmo sem perceber. Agora, no Waze (GPS), dá até pra ele te guiar pelas ruas da sua cidade, usando a voz o Fábio Porchat (link). Tem também o programa de auto-atendimento telefônico da VIVO, que foi humanizado, ganhou emoções e agora até responde ao cliente usando expressões humanas, do tipo: “- Ah, que pena!” ou “Puxa!”

Há três semanas, eu comprei um iPhone 6S e ele tem um aplicativo chamado Siri (link), que responde quase-humanamente ao que eu pergunto. Dá pra configurar ele pra falar com voz de homem e com voz de mulher. Escolhi mulher. E, se ela dissesse pra mim que eu sou bonito, com certeza eu iria gostar. É engraçado e assustador ao mesmo tempo. Mas isso não é nada. Já tem projetos levando esse conceito prum nível ainda mais complexo.

Quem viu o filme “Ela”, no qual o protagonista começa a ter um relacionamento com um programa de computador (link), sabe do que eu to falando. Isso tá virando realidade. Os robôs estão substituindo pessoas até em relacionamentos. É o caso do mini-robô-amigo da Toyota (link) e da Namorada-Robô do Realdolls, que une o conceito de boneca inflável com o de inteligência artificial (link).

O mais louco é que a gente tá substituindo humanos por máquinas e, ao mesmo tempo, querendo que elas se comportem da forma mais humana possível. Por que não encurtar o caminho e interagir logo com humanos reais? 😉

Pra fechar a “sessão bizarrices”, tem um chatbot (robô conversador) que foi criado com o objetivo de amenizar e ajudar a digerir a dor da perda de pessoas queridas. Esse app usa um banco de dados sobre a pessoa que já morreu e cria um simulador que interage virtualmente com a pessoa que ainda sofre (link).

Maquinização dos humanos

Do lado oposto, a gente encontra a Maquinização dos Humanos. Aliás, obrigado ao Charles Chaplin, que já tinha cantado essa bola em 1936, com o filme “Tempos Modernos” (link).

Imagina um ritmo de trabalho assim:

  • 8 horas por dia
  • repetição dos mesmos padrões de movimento
  • repetição dos mesmos padrões de pensamento
  • 5 dias por semana
  • 10 meses por ano
  • durante 10 anos
  • exigindo: atenção, concentração, velocidade, produção, resultados
  • sob: pressão, estresse, desgaste, cansaço, desânimo, depressão

Pareceu horrível? Pareceu familiar?

Imagina quantas pessoas no mundo inteiro trabalham dentro dessas condições? Uns 90% da população mundial, talvez? Quantas pessoas gastam tempo, energia e saúde, todo dia, trabalhando dentro de ambientes que não respeitam as necessidades humanas mais básicas? Quantas pessoas trabalham sob esquemas que não fornecem nenhum tipo de: reconhecimento, liberdade de escolha, liberdade de expressão, integridade, integração, afetividade, aceitação, empatia, inclusão, suporte, equilíbrio, segurança emocional, significado. Não tá difícil visualizar, né?

O caso é grave, porque são exatamente essas as necessidades mais básicas do ser humano (link). E elas são fundamentais para fazer as pessoas se sentirem minimamente bem. Os ambientes que não incluem essas necessidades, acabam atropelando o lado humano do ser humano, transformando as pessoas em corpos oprimidos, reprimidos, passivos, dóceis, dependentes, desempoderados, doentes, desacreditados, exaustos (link).

Eu, por exemplo, só consigo estar aqui escrevendo esse texto, porque tenho o privilégio de ter nascido, passado e participado da criação de ambientes que forneceram pra mim condições que atendem as minhas necessidades humanas mais básicas. Isso me deu um espaço mínimo pra conseguir refletir sobre as coisas. Pra você que está lendo esse texto, também, provavelmente, existiu um mínimo de privilégio em ter algumas dessas necessidades atendidas na sua vida, de uma forma ou de outra, em casa ou no trabalho. Então, na verdade, esse texto não é pra você, porque você tem grandes chances de já sabe de tudo isso que eu to falando, né?

O meu sonho seria ver se beneficiando dessa reflexão exatamente aquelas pessoas que não podem estar aqui lendo esse texto, as pessoas que vivem num nível de esgotamento tão grande e estão tão capturadas por um ritmo de vida que opera numa lógica de cíclica, infinita e viciosa que não conseguem ter um mínimo de flexibilidade para refletir, analisar desenvolver um senso crítico, se empoderar e transformar. Essas pessoas sim estão bem comprometidas. E aí, só resta uma opção. O corpo pedir socorro e recorrer ao último recurso: a doença. Como mostra o Documentário “Carne e Osso”, sobre trabalhadores da indústria de carnes (link).

Fornecer reconhecimento, liberdade de escolha, liberdade de expressão, integração, afetividade, aceitação, empatia, inclusão, suporte, equilíbrio, segurança emocional, significado não é uma responsabilidade apenas de algumas pessoas da sociedade. Todos nós temos poder de fornecer isso, tanto às pessoas com as quais convivemos e no relacionamos, quanto a nós mesmos.

Talvez seja a partir desse processo de conscientização sobre o que tem acontecido no mundo, sobre a humanização das máquinas, sobre a maquinização das pessoas, e sobre quais são nossos poderes de ação, que a gente consiga desenvolver estratégias concretas de transformação dos ambientes e das relações, no sentido de conquistar uma felicidade real, verdadeira, sustentável e humana. Como inverter a lógica e humanizar os processos humanos? Humanização pode ser um processo produtivo! (link).

Sabendo que a maior parte das nossas decisões não é feita pela parte racional do cérebro, o sistema neocortical, e sim pela parte emocional do cérebro, o sistema límbico (link), precisamos, de alguma forma, fazer essa consciência infiltrar o inconsciente, para que, além de saber o que precisa ser feito na direção da felicidade legítima, a gente consiga começar a transformar a teoria em prática e aplicar isso tudo o quanto antes. Tipo, a partir de agora.

Para receber minhas próximas publicações, cadastre seu email aqui.

Anúncios

Uma opinião sobre “A Humanização das máquinas e a Maquinização das pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s